terça-feira, 4 de novembro de 2008

Em estado tésico VII

"Quando o espírito patinha na lama das abstracções, não há nada como pôr de lado o óculo oficinal de ver o mundo e contemplar a realidade a olho nu. É salutar. As pessoas caminham, cumprimentam-se, conversam, sorriem; os pássaros voam; o sol brilha. E tudo naturalmente, livremente, praticamente, sem corda prévia e sem finalidades transcendentes. Numa evidência que dispensa argumentos, torna-se-nos manifesto que daqui a mil, a dois mil, a cem mil anos haverá, na mesma gente a caminhar, a cumprimentar-se, a conversar, a sorrir, e pássaros a voar, e sol a resplandecer. Portanto, são tolos todos os dramatismos congeminativos. Mais do que as lamúrias, as profecias, os pessimismos, as imprecações e os arrepelos em nome da vida, vale a serenidade confiante da própria vida."

in: M. Torga, Diário IX, 18-12-1961

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